"E a vida existe e também é bonita. E se renova. Tem lados de luz."

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Fim de tarde


Sentia como se fosse a dona do mundo pendurada no vai e vem da velha goiabeira. Do ponto mais alto era capaz de ver o vento batendo na copa das árvores, assim como ele batia em seus cabelos naquele momento. Fechava os olhos, pronto, estava voando.
Ouvia o canto dos pássaros anunciando o fim de tarde (coisa que o céu laranja já denunciara), a avó batendo as panelas lá na cozinha também indicava que logo ela teria de encerrar a brincadeira.
"Agora você me empurra!", passava suas mãos na roupa velha ("de sítio") a fim de suavizar os ralados provocados pela velha corda do querido balanço. E começava a empurrar a fiel companheira de brincadeiras.
Ainda hoje, quando anda apressada pelas ruas da cidade e o vento toca seu rosto, tem aquela estranha sensação... aquela impressão de que está voando em meio aquele caos de buzinas cinzas e concreto barulhento.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Perecível


Sobe na cama para alcançar a parte mais alta do guarda-roupa, pois é lá que está aquele cemitério de lembranças, um monte de papéis de diferentes formas e cores, todos com letras caprichadas. Joga tudo no tanque, que geralmente usa para lavar roupas, risca o fósforo, o fogo consome.
Às vezes, dizemos a alguém que não conseguimos viver sem essa pessoa, e usamos expressões como "nunca mais", "sempre"... Tudo tão drástico, tão sem lógica. E é tudo uma mentira lavada, mas não mentimos por maldade, simplesmente acreditamos muito nessa mentira, porque é bom acreditar que encontramos a pessoa da nossa vida. A mentira é importante, essa ideia de eterno (nem o acento de ideia conseguiu ser eterno) é uma bobagem juvenil, o mundo muda, gira,nem as cartas tem de ser eternas, quem um dia te disse "te amo" no outro diz "morra", e você acha que isso te machuca? Não, por mais incrível que pareça, você nem liga!
E é nisso que aquele passado estúpido se transforma, em cinzas, em nada, e isso faz um bem danado ao coração que um dia foi magoado, hoje só tem espaço para a felicidade que alguém encantador traz.

sábado, 18 de setembro de 2010

"desenhar com luz e contraste"

Tá vendo aquele desenho de Veneza ali no canto? O que tem o cara com chapéu e camiseta listrada! Gostei tanto de ganhá-lo!
E aqueles amigos naquele bar que eu não gosto muito, mas eles e as caipirinhas fizeram aquele dia ser demais!
E aquelas três amigas vestidas para uma noite de gala, na verdade era uma linda formatura, com uma formanda mais que especial!
Sua mãe já te obrigou a tirar aquela foto com todos os seus primos em um dia que você não tava muito legal, você acaba saindo com aquela cara de "prisão de ventre" e na casa de sua avó , seus tios, suas tias têm um porta retrato com ela!?
E aquele sorriso ali? ele para o seu coração? O meu quase sai do peito quando eu vejo os lábios daquela garotinha de cabelos dourados em cima de um balanço me pedindo pra brincar. Ahh, eu quase morro!
E aquele garoto? Ele que desenhou nossa Veneza e me contou histórias do México! Fica do meu lado e me dá colo( mesmo com o risco de pegar uma super virose mutante)!Mas, não! esqueça, ele não vai te dar colo! ;)
E você e sua melhor amiga ali, estavam prontas pra ir à uma festa, ela quis te maquilar(ou maquiar, já disse que não sei a diferença). Vocês se divertiram muito naquela festa! Você sempre se diverte com ela!
Os amigos da faculdade, reunidos no querido "Juliana"(o banco predileto que fora destruído), ou numa super batatada com músicas latinas!Sem eles você não teria o mesmo ânimo para ir à faculdade todos os dias!
Os dias de Tiete, com aqueles cantores ali, gloriosos dias, coração a mil!
Aquela família, os que ficaram e os que já se foram, as coisas que ficaram e aquelas que hoje não existem mais, os que estão longe, os que estão tão perto. Tudo, exatamente tudo, pendurado na parede de um quarto, numa placa metalica que tem o valor de uma baú, uma baú de recordações, um simples mural.

domingo, 29 de agosto de 2010

VÔce

As lembranças estão comigo
dos dias calmos e com sol
Naquele banco sentava o meu amigo
que adorava falar de futebol

Todo feliz nos esperando
Na ruazinha deserta, quanta calmaria
Pela mão ia me levando
"Quer salgadinho?", que alegria!

Do timão você não conseguiu me tirar,
mas em mim sempre vai ficar
a imagem do homem bom, que sempre batalhou
e a todos tanto amou!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Rei, capitão, soldado ou ladrão?

Ela está na fila como todas as outras garotas, todas menos aquela que já conseguiu sua vez. Está esperando com seu chinelo de dedo, seu short por cima de uma blusinha velha, daquelas que as crianças sempre usam para brincar na rua, em seu cabelo sua avó fez uma trança, teve todo o capricho de ajeitar aqueles fios tão finos e lisos numa trança que já está quase destruída pelas brincadeiras.Sua franja ela empurra para trás, para não atrapalhar sua visão.
O som da corda batendo no asfalto da rua larga cheia de crianças e de senhoras fazendo seus artesanatos na pacata cidade é o lhe lhe agrada, mal sabe a pequena garotinha a nostalgia que esse som pode vir a trazer um dia. Um cachorro magrelo observa tudo da calçada, parece entender cada musica que aquelas crianças cantam, seja na corda ou nas brincadeiras de roda, parece saber de todas elas há muito tempo.
Como estamos nas férias de verão, o sol demora mais para se pôr, e nessa hora, às cinco, ou seis, o dia está completamente laranja. E as crianças gostam desses dias laranja, pois neles arrumam mais tempo para ficar na rua, batendo com seus chinelos no chão quente. Os meninos preferem as bolinhas de gude pelos terrenos baldios no bairro.
E sempre o mesmo verso recomeça"Com quem/ você/ pretende se casar/ loiro, moreno, careca, cabeludo..." e ela vibra a cada menina que erra, seu foco de visão é apenas a corda batendo, e os pés sujos das meninas... Torce para cada tropeço, para que assim chegue sua vez. Finalmente chega, e ela começa a pular, e pular, até que erra, mas não fica triste, apenas despeja na rua um riso tímido, volta ao fim da fila, sua mãe a chama para jantar, tomar banho e dormir (essas coisas que mães pedem em horas tão indevidas). A garota se despede dos amigos na rua, para que na manhã seguinte o ciclo de brincadeiras comece todo outra vez. Como ela gosta das férias de verão!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mas ela diz que apesar de tudo ela tem sonhos...♫


Aquele gosto de vodka com maracujá, tequila e pinga com limão. No espelho aquele cabelo desgrenhado e a maquiagem mal tirada; marcas no pescoço, vestígios da noite anterior.
Com suas roupas amassadas e a calça jeans apertada, destruindo sua silhueta,olha para o relógio, os ponteiros apontam onze horas, um pouco tarde para um café da manhã, mas a ressaca é tamanha! Precisa de um café bem forte e sem açúcar para engolir com um analgésico que carrega consigo na bolsa de coro.
Tira de vez aquela maquiagem(ou seria maquilagem? nunca soube), prende o cabelo num coque e joga muita água em seu rosto, quer ficar com aparência limpa. Fecha o zíper da bota, caminha cambaleando até o elevador desconhecido. Vai até a padaria, de esquina, dois quarteirões do condomínio que havia dormido aquela noite. Pede um café, estava sem açúcar, porém muito fraco, àquela altura...estava no ponto. Depois de passar por aquela porta, Teresa, não tem destino traçado, a garota vai até onde o vento levar e até onde suas mentiras permitirem. Não tem passado, nem futuro, tem apenas um quase presente. Vive segundo a segundo, sem saber qual será a marca de amanhã.

sexta-feira, 2 de abril de 2010


Ah! As cenas da vida!Fecho os olhos e elas me vem, como num filme banal. Ou melhor, como um "quase-filme", pois não vejo a personagem principal, enxergo pelos olhos dela. Em algumas cena, recentes, ela está tensa, confusa, um tanto desmedida e sarcástica.
Naquelas partes mais distantes, na infância, uma garota curiosa e tão serena.Aquelas idas ao sítio, aqueles pés sujos de barro e aquelas picadas de pernilongo na canela.Nos dias de chuva, o cheiro de terra molhada dava-lhe a sensação de pureza, os cachorros latindo e as galinhas ciscando...Ah, isso tudo fica em um lugar tão especial na mente dela.É como se houvesse uma caixinha de ouro por dentro, e lá ficassem todas as recordações gostosas da infância.
Ela ainda se lembra dos segredos contados à sua prima em um quarto com a porta trancada, hoje elas fazem isso sentadas num bar, com uma bebida colorida qualquer. Os segredos não são mais os mesmos, as personagens também, mas a necessidade de contar ainda é a mesma.
E as cenas passam, e eu enxergando pelos olhos dela...Grandes cenas; aquele primeiro beijo numa festa junina; aquelas tardes com as amigas; aquela prova que dava frio na barriga; o filme que a fez chorar;o sorriso que fez o coração dela parar; aquela música; as tardes cor-de-preguiça; o mar que ela colocou os pés; a música que fizeram pra ela; aquele bar que ela adora; o abraço que ela sempre precisa; o sonho do México... Não sei quando vou parar de enxergar a vida dessa menina, sei que o filme parece bom...suspense, comédia, romance, e muito drama....um pouco de tudo nesse enredo...qual será o desfecho dessa história?